ESPECIAL
Por Murilo Roncolato, Ariel Tonglet e Guilherme Prado em 23 de agosto de 2016
Este especial contém áudios
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O samba já foi ‘amaxixado’ na época de Donga, sincopado com a turma do Estácio, calangueado com Martinho, choroso com as vozes do rádio, sofisticado com a bossa nova, ruralizado com o paulista Geraldo Filme, suingado com Jorge Ben, épico com os enredos de Silas, batucado com o pagode do Cacique e romântico nos anos 90. Acompanhe essa história e entenda as mudanças pelas quais passou o gênero que agoniza, mas não morre
Está ouvindo essa música? Os versinhos são velhos conhecidos. Há 100 anos, Ernesto dos Santos, conhecido como Donga, registrava a partitura da música na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, como um “samba carnavalesco”. O carioca, com então 26 anos, já estava de olho no carnaval do ano seguinte. Na voz do cantor Manuel Pedro dos Santos, chamado Baiano, a canção foi gravada e, como ansiado por Donga, estourou e foi cantada em coro por foliões em blocos pelas ruas do Rio.
“O chefe da folia,
pelo telefone mandou me avisar
Que com alegria não se questione
Para se brincar!Ai, ai, ai. Deixe as mágoas pra trás, ó rapaz
Ai, ai, ai. Fica triste se és capaz e verás.”
(Donga e Mauro de Almeida)
Além de garantir a alegria de quem brincava o carnaval, “Pelo telefone” guarda a importância de ser apontada como o primeiro samba gravado. O que não é livre de contestações.
Primeiro, pesquisadores apontam a existência de gravações anteriores que já levavam a classificação de gênero “samba”. Questiona-se também a autoria do samba como sendo de Donga, além do jornalista Mauro de Almeida, já que muitos dos versos já eram cantados em rodas de samba na casa da Tia Ciata, cozinheira que na sua casa recebia sambistas de toda parte do Rio de Janeiro. Não por acaso, alguns versos mudam conforme a versão (“chefe da folia” vira “chefe da polícia”, que avisa que no bairro da Carioca tem “uma roleta para se jogar”). Por fim, rebate-se ainda seu enquadramento como samba. O argumento é de que a gravação, rústica, feita sem percussão, reproduz um samba “amaxixado”. O samba, tal qual viria a ganhar todo o país, seria elaborado apenas anos depois.
Sob dúvida ou não, o caso é que “Pelo telefone” marcou época e colocou o samba, gênero musical adotado como sendo “a cara do Brasil”, em evidência no carnaval carioca. “Ele fez um sucesso estrondoso e levou o samba para o disco, fazendo com que o samba se tornasse a trilha sonora do carnaval carioca em definitivo”, diz Luis Filipe de Lima, instrumentista, compositor e pesquisador musical, que assina com o sambista Nei Lopes o livro “Dicionário da história social do samba” (Civilização Brasileira, 2015). “Antes dele, havia muita marcha, maxixe… Tinha de tudo. ‘Pelo telefone’ marca esse salto do samba em matéria de prestígio.”
Aproveitando este marco, consultamos sambistas, músicos e pesquisadores para saber quais outros sambas gravados marcaram e renovaram o gênero nestes 100 anos. Para cada período, você poderá ouvir uma seleção dos sambas recomendados. Ao final, preparamos uma lista completa com todas as indicações, feitas por: Germano Mathias, Hermano Vianna, Luis Filipe de Lima, Luiz Antônio Simas, Rafael Lo Ré, Rildo Hora, Sérgio Cabral, Tadeu Kaçula, Teresa Cristina, Thobias da Vai-Vai, Tuco Pellegrino e Wilson das Neves. Vem que a roda de samba vai começar:
É da década de 1910 a primeira geração de sambistas. Contemporâneos de Donga, estavam ali grandes nomes como o talentoso Pixinguinha (autor de “Carinhoso”), o pandeirista João da Baiana, os pioneiros do violão sete cordas China (irmão de Pixinguinha) e Tute, além do instrumentista e compositor Sinhô. Este, cujo nome era José Barbosa da Silva, assina diversas composições que viriam a ser gravadas por vozes importantes da época, como Francisco Alves ("Ora, vejam só" e "Me faz carinhos", de 1925 e 1928, respectivamente) e Mário Reis ("Jura" e "Gosto que me enrosco", de 1928). Não por acaso, ganhou o título de “Rei do samba”.
Nesta época, o processo de gravação era penoso e os resultados, de baixa qualidade. Os músicos eram obrigados a cantar a plenos pulmões em direção a uma corneta, a fim de imprimir por meio de uma agulha o som nos discos de 78 rotações, posteriormente tocados em gramofones.
A seleção do que e como seria gravado também era rigorosa. Sendo centralizada no Rio de Janeiro, a pequena indústria fonográfica registrava as produções de quem ali vivia e ao estilo da fatia da população carioca com poder aquisitivo que pudesse comprá-las. O advogado e músico Rafael Lo Ré, membro do grupo paulista Glória ao Samba, dedicado à pesquisa e reprodução de sambas antigos, comenta que por essa razão muitos dos sambas da época eram orquestrados e raramente contavam com “batucada”, ou seja, instrumentos de percussão como pandeiro, surdo e tamborim.
O samba estava ali, mas ainda não com a estrutura mais “suingada” ou “sincopada” que assumiria a partir da segunda metade da década de 1920, com um grupo de sambistas do Estácio, bairro central do Rio de Janeiro. Alcebíades Barcelos (Bide), Ismael Silva, Nilton Bastos, Mano Edgar, Armando Marçal, entre outros, formaram aquela que se tornou a primeira escola de samba carioca, chamada “Deixa Falar”. Localizados próximos a uma Escola Normal (instituição que formava professores), adotaram a brincadeira de que eram professores de samba, daí o título de “escola de samba”.
“O pessoal do Estácio chega fazendo um samba diferente, com melodia, sincopado, ou seja, apoiado nas notas fracas, e também com notas longas, recurso que ajuda a se cantar mais alto, feito para se desfilar o Carnaval”, diz o músico Luis Filipe de Lima.
Rafael Lo Ré, do Glória ao Samba, lembra que a turma do Estácio, através do Bide, ainda inovou com a introdução de instrumentos, como o surdo (uma lata grande de manteiga) e o tamborim, ambos com couro. “Eles inventaram uma maneira nova de tocar samba, deram métrica e isso influenciou Mangueira, Portela e, por conta das gravações, se espalhou para o Brasil todo”, diz.
No mesmo compasso
O samba não é só carioca. Apesar da influência, que veio principalmente do redesenho de estrutura, o gênero tem influências e cara própria em todos os cantos do país. No vídeo, Tadeu Kaçula explica e demonstra o que traz essa diversidade para o mesmo eixo.
Ainda nos anos 30, aparece o samba-choro, ramo que, segundo o músico Luis Filipe de Lima, influencia não só o samba da época, mas também serve de inspiração para figuras futuras, como Tom Jobim e a bossa nova, Luiz Gonzaga e o baião.
“Num primeiro momento, o samba era arranjado por músicos habituados ao maxixe. Depois, entram os regionais de choro, que eram pau para toda obra”, diz Lima. Do estilo, saltam os sucessos de Noel Rosa, como “Conversa de botequim”, feito com seu parceiro Vadico. “É um samba choro clássico, com intervalos menos comuns, uma harmonia que se movimenta mais que o samba, e uma melodia mais elaborada. Ainda assim é um grude, quem conhece, canta e entra na memória”, diz.
Para o jornalista Sérgio Cabral, especialista na história do samba carioca, “para entender de samba é preciso conhecer certos autores, e Noel Rosa certamente é um deles”. Para Cabral, Noel possuía “a linguagem do samba e seu sotaque. Fez muito samba choro, mas também samba de carnaval”, citando como exemplo “Palpite infeliz”, no qual defende o samba feito na sua Vila Isabel. Diz a letra:
“Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira,
Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila Não quer abafar ninguém,
Só quer mostrar que faz samba também.”
(Noel Rosa)
Em “Palpite infeliz” já se tem algo do que seria chamado de samba-exaltação: tipo que se volta a exaltar um personagem da história, o Brasil, ou ainda, como era frequente, o próprio samba, seus compositores e escolas (caso de “Mangueira”, de Assis Valente, interpretado pelo Bando da Lua). Em 1935, a Portela sai para desfilar com o samba “Cidade mulher”, enaltecendo o Rio de Janeiro, então capital da República. Segundo Monarco, antigo compositor da escola, foi uma forma do fundador Paulo da Portela agradecer as autoridades por permitir o desfile das escolas, então marginalizadas.
Quatro anos depois, o mesmo Paulo da Portela fincaria uma bandeira na história do carnaval ao fazer um samba que acompanhasse o enredo proposto pela escola, trajada também com fantasias que remetiam ao tema. Era 1939 e a Portela sairia na Praça Onze exaltando a figura do professor e as salas de aula. Paulo, então, fez “Teste ao samba” :
“Vou começar a aula
Perante a comissão, muita atenção
Que eu quero ver
Se diplomá-los posso
Salve o ‘fessô’
Dá nota a ele, senhor
Quatorze com dois doze
Noves fora tudo é nosso”
(Paulo da Portela)
“É um samba fundamental, um marco de um gênero que começava a surgir ali que era o samba-enredo”, diz o historiador Luiz Antonio Simas, que conta que antes dele, os sambas das escolas não tinham que estar ligados a um enredo. “A escola costumava desfilar cantando sambas de quadra. A coisa de cantar o que estava sendo apresentado visualmente veio com o Paulo. E ele traz o samba com uma rítmica parecida com a do samba do Estácio, talvez o exemplo mais bem acabado do que eles começaram, já que é um samba feito para você cantar andando.”
Ainda exaltando, entra para a história o compositor Ary Barroso com “Aquarela do Brasil”, gravado por Francisco Alves durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, em 1939, com arranjo sinfônico de Radamés Gnatalli. “É um samba ufanista que marca essa época. Com sua roupagem orquestral, foi visto como um samba que elevaria o gênero, levando-o para além dos botequins”, diz Lima.
O pianista, arranjador e compositor Radamés Gnatalli tem dedo em mais uma das músicas fundamentais dessa história. É dele a orquestração de “Copacabana”, de autoria de Braguinha, João de Barro e Alberto Ribeiro, gravado na voz de Dick Farney, em 1946. A canção que exalta a praia carioca (“Existem praias tão lindas cheias de luz / Nenhuma tem o encanto que tu possuis”) e imortaliza o apelido de “Princesinha do mar” marca o retorno do samba-canção, “braço” que contou com exemplos nas décadas de 1920 e 30.
Em geral, são sambas de andamento mais lento, orquestrados com melodias rebuscadas, letras melancólicas e românticas ("de fossa", se preferir), interpretadas pelas vozes do rádio, como Araci Cortes (que dá voz à canção que origina o subgênero: "Linda flor 'Ai Ioiô'", de Henrique Vogeler e Luiz Peixoto), Dalva de Oliveira ("Intriga", de Sinval Silva e Tito Clement), Dora Lopes ("Você morreu para mim", de Fernando Lobo e Newton Mendonça), Orlando Silva ("Eu sinto vontade de chorar", de Dunga), Silvio Caldas ("Mente ao meu coração", de Francisco Malfitano), Francisco Alves ("Marina", de Dorival Caymmi) e Nelson Gonçalves ("Último desejo", de Noel Rosa).
Dentre os compositores mais gravados no samba-canção, destaque para o gaúcho Lupicínio Rodrigues, autor da célebre “Nervos de aço”, gravado em 1947 por – novamente ele – Francisco Alves.
Ruy Castro, em seu livro “A noite do meu bem: A história e as histórias do samba-canção”, lembra que o subgênero era associado ao bolero cubano. Coisa que ele refuta. “Como o nome diz, ele é um samba em forma de canção – suave, moderada. Ou uma canção em ritmo de samba – este também suave, moderado. É irmão de todas as canções românticas do mundo.”
Da dor de cotovelo, o samba com arranjos e melodias sofisticadas segue na mesma linha e encontra o violão de João Gilberto, o piano de Tom Jobim e a poesia de Vinicius de Moraes. Inaugurando a bossa nova, no disco “Canção do amor demais”, Elizeth Cardoso canta as composições de Tom e Vinicius acompanhada do violão de João. É neste álbum que “Chega de saudade” aparece pela primeira vez, antes de ser gravada pelo Cariocas e pelo próprio João Gilberto meses depois, em 1958.
Caso tenha ficado na dúvida se bossa nova é samba, Sérgio Cabral responde. “Isso nunca foi uma discussão. ‘Chega de saudade’ não só é um samba, como é um belíssimo samba. Muito bem feito, por sinal.” O músico e pesquisador Luis Filipe de Lima adota posição semelhante. “Tem gente que entende a bossa nova como um braço que se destacou do samba. Eu não. Eu vejo como um ramo dessa grande árvore. E ‘Chega de saudade’ é um exemplo de samba que virou um samba de bossa nova.”
A década de 60 marca a época em que os pequenos e pesados discos de 78 rotações vão deixando o mercado e dando lugar aos discos de vinil, os LPs, permitindo a gravação de mais músicas de cada lado e tornando o processo todo mais fácil. É nesse período que o samba ganha outros inovadores, além de discos de artistas solo, de escolas de samba e do partido alto em ação. Todos trabalhos que influenciariam as gerações que viriam.
A começar por Jorge Ben, surgindo com sua levada em 1963 com seu disco “Samba Esquema Novo”. “É um cabeça de chave do que virou o sambalanço, o samba rock. Tem uma harmonia já diferente. Dele eu fico com ‘Mas que nada’, samba que abre o disco e já dizia a que vinha”, opina Luis Filipe de Lima, citando a faixa que viria a ser regravada também por artistas de fora do país, como Ella Fitzgerald.
Se o carioca Jorge Ben chamou atenção pelo novo, Martinho da Vila cativou por colocar um tipo de samba tradicional para tocar nas rádios. Vindo do interior do Rio de Janeiro, Martinho apresenta um samba que remete ao calango, samba rural que se executa entre cantores que soltam versos improvisados ao som de um pandeiro. É através dele que a levada rural se imprime no disco, bem como ganha popularidade o samba de partido alto, típico dos terreiros ou quadras de escola de samba, no qual se tem um refrão e os versos também são feitos de improviso pelos “partideiros”.
“O partido alto se fazia de muito, era para se versar. Isso eu vivi na casa da minha tia ainda pequeno. Era na palma da mão, raspando faca no prato, e um pandeiro, que às vezes nem tinha. Era um negócio mais artesanal mesmo”, lembra o instrumentista, compositor, cantor e personagem notório nessa história, Wilson das Neves, de 80 anos.
“Com sua melodia simples e poética riquíssima, Martinho é um inovador”, diz o músico e produtor musical Rildo Hora. “Quando ele apareceu, estava naquele período pós-bossa nova e ele simplificou ao máximo a melodia e harmonia do samba. Além disso, por ser da cidade de Duas Barras, vem com seu samba calangueado. Foi muito importante”, resume.
Martinho aparece em 1969 com um disco que levava seu nome e faixas que incluíam “Casa de bamba” e “Iaiá do cais dourado”.
“O partido alto é a matriz a partir da qual o Martinho faz as coisas. Ele atualiza o partido, mas faz também samba-enredo influenciado por ele, como é o caso de ‘Iaiá do cais dourado’. Assim como Wilson Moreira, ele tem o calango também e vai fazer um diálogo do partido alto, o calango e o samba do Estácio. Ele redimensiona o samba nesse sentido.”
Importante notar que Martinho não é o primeiro a colocar partido alto em disco. O músico e pesquisador Luis Filipe de Lima lembra que "partido alto já era feito desde os tempos das 'tias' da primeira geração". Um resgate começa a ser feito nos anos 50, que conta com exemplos como o de Jamelão, que grava “O samba é bom assim”.
“O Martinho deu visibilidade para isso. O grande lance do partido alto é que o verso é feito livremente, quando se coloca no disco, esse sabor do improviso se perde. Muita gente já gravou improvisando, como o Aniceto do Império”, diz Lima. “Depois de Martinho virão outros que aí passam a ter o partido alto como matéria-prima importante.”
Com os LPs, passam a surgir discos feitos com as escolas de samba do Rio de Janeiro que passam a registrar os sambas apresentados nos desfiles de carnaval, bem como sambas “internos”, chamados de terreiro, de quadra ou ainda “de meio de ano”. Da época, Rafael Lo Ré e Tuco Pellegrino, ambos do grupo Glória ao Samba, destacam o álbum “Portela, passado de glória”, de 1970.
O disco é resultado de um trabalho do Paulinho da Viola de resgate de sambas antigos, músicas dos carnavais dos idos de 1930, algumas interpretadas pelos seus próprios compositores. É assim que as criações de Manacéa ("Quantas lágrimas"), Paulo da Portela ("Cocorocó"), Chico Santana ("Vida de fidalga"), Alberto Lonato ("Sofrimento de quem ama"), Ventura ("Se tu fores na Portela") e Rufino ("Levanta Cedo") puderam ser preservadas.
A gravação da ‘verdade’
Finda a era dos discos de 78 rotações (rpm). As produções orquestradas, interpretadas por grandes cantores de sempre dão lugar, com o advento do LPs, a gravações genuínas. Compositores e escolas de samba vão para o estúdio e reproduzem o que se fazia nos terreiros e quadras. Caso do disco "Samba!" (1956) com a escola do Salgueiro, que tem o registro de "Brasil, fonte das artes". Os músicos do agrupamento Glória ao Samba, de São Paulo, contam como esses discos são importantes para quem busca fidelidade histórica.
Dentre os compositores de escolas de samba, ao menos um nome se sobressai por se tratar de um sambista considerado um divisor de águas. Silas de Oliveira, compositor e sambista, que ganharia prestígio escrevendo samba-enredo para a escola Império Serrano, em Madureira, da qual participou da fundação.
“Silas de Oliveira muda toda a lógica de samba-enredo. A métrica era uma antes de Silas e outra depois”, diz Tadeu Kaçula, músico e diretor do Instituto Cultural Samba Autêntico, em São Paulo.
Wilson das Neves recomenda “Os cinco bailes da história do Rio��� (1965), Luiz Antonio Simas cita “61 anos de República” (1951), “Glória e Graças da Bahia” (1966) e “Heróis da Liberdade” (1969). Já Rildo Hora lembra de um clássico de Silas e compara: “Ele é o Tom Jobim do samba-enredo, fora de qualquer análise. ‘Aquarela brasileira’ (1974) está para o samba-enredo como ‘Aquarela do Brasil’, do Ary Barroso, está para o samba. Todos seus sambas valem a pena.”
“Vejam essa maravilha de cenário
É um episódio relicário,
Que o artista, num sonho genial
Escolheu para este carnaval.
E o asfalto como passarela
Será a tela do Brasil em forma de aquarela”
(Silas de Oliveira)
“O mais engraçado é que ele fazia samba-enredo sozinho. Hoje precisam de dez pessoas para assinar um. Igual a ele não se fez mais não”, diz das Neves.
Dada a possibilidade de gravar álbuns com diversas faixas sem depender de grandes intérpretes, chegam à indústria fonográfica mais facilmente, além de Martinho da Vila, compositores como Cartola, Beth Carvalho, Paulinho da Viola, Dona Ivone Lara, Candeia; além de Geraldo Filme, em São Paulo; e Batatinha, na Bahia.
Política, Candeia e Geraldo Filme
Candeia no Rio de Janeiro e Geraldo Filme em São Paulo. Contemporâneos, dialogam no samba através de suas letras. De 1978, "Dia de graça" do álbum "Axé", do Candeia. E, de 1980, "Garoto de Pobre", do álbum de Geraldo Filme. Tadeu Kaçula faz suas sugestões de canções tocando e chamando atenção para a profundidade de cada uma delas.
No fim da década de 1970, uma reunião de sambistas na zona norte do Rio de Janeiro chama atenção de Beth Carvalho. Na sede do bloco carnavalesco Cacique de Ramos surgiu o Fundo de Quintal, grupo que já teve em sua composição nomes como Jorge Aragão, Sombrinha, Almir Guineto, Arlindo Cruz, Neoci (filho de João da Baiana, sambista da primeira geração), Mário Sergio e ainda conta com Bira Presidente, Sereno e Ubirany. Em 1978, Beth Carvalho gravou a música “Vou festejar”, de Jorge Aragão, Dida e Neoci, no álbum “De pé no chão”, dirigido por Rildo Hora, inflando sua carreira e chamando atenção para o grupo, que participa tocando nas faixas.
“A geração de Cacique é super importante. Havia ali o poeta Luiz Carlos da Vila e toda a contribuição rítmica do Fundo de Quintal e os herdeiros, todos eles com bons sambas”, diz Rildo Hora. “Eu não diria que são sambas sofisticados como os de Paulinho da Viola, mas tem um valor muito grande porque conseguem muita comunicação e tem qualidade harmônica e poética. São sambas que marcaram bastante e influenciaram o samba que a gente ouve nas ruas até hoje.”
“Se os duetos não se encontram mais
E os solos perderam emoção
Se acabou o gás pra cantar o mais simples refrão
Se a gente nota
que uma só nota
Já nos esgota
O show perde a razão
Mas iremos achar o tom
Um acorde com um lindo som
E fazer com que fique bom
Outra vez, o nosso cantar
E a gente vai ser feliz
Olha nós outra vez no ar
O show tem que continuar.”
(Luiz Carlos da Vila)
O grupo inova dando um tempero diferente à “batucada” inserindo novos instrumentos. Almir Guineto introduz o banjo com braço de cavaco; Sereno e Ubirany completavam com um tantã (tipo de tambor tocado na horizontal com as mãos) e um repique-de-mão (adaptação do repique usado nas escolas de samba, também tocado com as mãos).
“Ninguém tocava tantã como o Sereno, inovador, tocou. Bira no pandeiro, Ubirany no repique e Sereno no tantã formam a melhor batucada que eu ouvi nos últimos 30 anos”, completa Hora.
Em 1980, o grupo lança seu primeiro disco “Samba é No Fundo do Quintal - Vol.1”. Do álbum, destaque para “Gamação danada”, autoria de Almir Guineto e Neguinho da Beija-Flor. “É um samba muito lembrado desse repertório, que tem toda a revolução do pessoal do Cacique”, lembra o pesquisador Luis Filipe de Lima. “É um samba que tem uma marcação um pouco diferente, com notas longas e mais repicado. O samba de maneira geral ganhou um fôlego novo nessa época e acho que não por acaso.”
Dos “herdeiros” do Cacique, Zeca Pagodinho é um nome forte. Seu primeiro disco gravado sai em 1986, seguido de “Patota de Cosme”, seu segundo trabalho de estúdio, logo no ano seguinte. Para Teresa Cristina, apesar de gostar de gravar sambas de amigos e compositores iniciantes, quando compôs, Zeca foi muito bem sucedido. É o caso de “Termina aqui”, de 1987, em parceria com Arlindo Cruz e Ratinho. “É um samba muito bonito, com uma melodia linda, que fica na memória.”
A turma do Fundo de Quintal já era chamada de geração do pagode, palavra associada desde o começo do século 20 a reuniões de sambistas. “Não entendo pagode como estilo de música. Pagode é uma festa”, diz o experiente Wilson das Neves. “Eu canto samba, mas acaba virando pagode, porque é sempre uma festa, né?”. O pagode carioca serviria de combustível para uma variação que se alastrou principalmente pela periferia paulistana, dando origem ao que se convencionou chamar de pagode paulista, romântico ou ainda pagode 90. É dessa época grupos como Art Popular, Molejo, Exaltasamba, Negritude Junior, Raça Negra e Só Pra Contrariar.
“O movimento do pagode foi importantíssimo. Tem puristas que desconsideram e colocam o pagode como sendo samba de baixa qualidade poética. Eu não discuto isso. Música boa não tem idade”, afirma o músico Tadeu Kaçula, do Instituto Samba Autêntico. Para ele, o pagode partiu da periferia e conseguiu ganhar espaço onde o samba havia perdido: a grande mídia.
“Se você for pegar a década de 60 e 70, Clara Nunes, Roberto Ribeiro, Cartola, Adoniran, Paulo Vanzolini… essa turma toda conseguiu chegar na mídia. Mas depois teve um marasmo com o advento do rock nacional, que roubou a cena. O samba perdeu presença. O pagode abriu espaço para novas gerações se relacionarem com o samba”, diz.
Essa mesma geração já gerou seus próprios herdeiros, como Thiaguinho, Turma do Pagode, Bom Gosto, grupos que até hoje se mantêm populares entre jovens e com grande presença nas rádios e na televisão. Claro que não livre de críticas.
O produtor Rildo Hora, de 77 anos, considera o pagode atual um “samba muito urbano” e “sem maiores compromissos com a coisa da poesia”. “O que é ruim é a falta de um grande letrista. O samba teve Noel Rosa, a bossa nova teve o Vinicius, o samba do Cacique teve o Luiz Carlos da Vila. Esse samba aí não tem ninguém. Por isso, acho que quando a peneira da história passar, é capaz de não ficar nada.”
“Samba, agoniza mas não morre
Alguém sempre te socorre
Antes do suspiro derradeiro
Samba, negro, forte, destemido
Foi duramente perseguido
Na esquina, no botequim, no terreiro
Samba, inocente, pé-no-chão
A fidalguia do salão
Te abraçou, te envolveu
Mudaram toda a sua estrutura
Te impuseram outra cultura
E você nem percebeu”
(Nelson Sargento)
Em parte alheio às ramificações e inovações presentes em seus subgêneros, o grande eixo do samba, chamado “raiz” ou “tradicional”, se manteve firme ao longo do século em uma situação de resistência que muitos consideram política.
O paulista Germano Mathias é dos que se colocam nesse front. Para ele, o samba sobrevive em razão dos sambistas que continuam a produzir com referência nos mais antigos, apesar da falta de apoio. “O samba tem uma qualidade excelente, mas ele não tem a necessária mídia que deveria. O samba raiz tem divisão marcante, não atrasa, nem adianta, por isso ele fica gostoso. Tem muito sambista de qualidade que faz isso, mas que devia ter maior propagação e não tem. Ai se eu tivesse um programa de samba…”
O antropólogo, pesquisador musical e criador do programa "Esquenta!", Hermano Vianna pondera que o samba nunca foi unanimidade e, em toda sua trajetória, foi alvo de disputas. “No meu livro ‘O mistério do samba’ eu tento mostrar como no momento mesmo de sua consolidação como estilo musical, e de sua transformação em ‘símbolo de identidade nacional’, havia a luta constante entre a repressão mais brutal e a enaltação oficial”, diz.
“Continuou assim o tempo todo, até agora, uma história de resistência constante, sem trégua, com conquistas e perdas de espaços, muitas vezes ao mesmo tempo.”
Nessa resistência constante entram, além das próprias escolas de samba, outras comunidades de samba que fazem o trabalho de pesquisa e memória de sambas tradicionais. Em São Paulo, Tadeu Kaçula cita, além do próprio Instituto Samba Autêntico, que realiza rodas de samba com compositores na cidade, casos como o Mutirão do Samba, Projeto Nosso Samba, Clubes dos Sambistas, Samba da Vela e o Morro das Pedras.
“Todos movimentos que ressignificaram o samba em São Paulo. Eu acredito fielmente na resistência e na persistência do samba para daqui muitos anos, mas principalmente pela força dessas comunidades, que de segunda a segunda, fazem seu samba na periferia”, afirma.
Rafael Lo Ré cita o trabalho de pesquisa que faz com o grupo Glória ao Samba nas escolas de samba cariocas. Como exemplo, lembra das visitas ao Salgueiro e das conversas buscando resgatar composições antigas. “Falamos com os compositores da época, fizemos amizade, todo final de semana a gente estava no Rio. Levantamos mais de 150 sambas inéditos que foram cantados no Morro do Salgueiro”, lembra. “Teve muita gente que abandonou as escolas por conta da modernização. Resgatar esse samba verdadeiro é algo muito bonito para a gente.”
Além da preservação do antigo, a sobrevivência está também na criação do samba novo. Para isso, existe toda uma nova geração fazendo samba atual seguindo a linhagem. Teresa Cristina está no olho desse furacão. Cantora de sambas – de compositores sobretudo da Portela – desde 1998, Teresa diz que como parte da “geração anos 2000” vê muita gente boa, compositores novos produzindo sambas de qualidade, “mas cada um com a sua informação”.
Da nova safra, a carioca de 48 anos cita João Cavalcanti (vocalista do grupo Casuarina), Pedro Miranda, Alfredo Del-Penho (considerado o melhor cantor de samba pelo Prêmio da Música Brasileira 2016), a bandolinista Nilze Carvalho, Ana Costa e Alice Passos. “Esse pessoal está trabalhando, mas eu ainda acho cedo para analisar essa obra toda”, diz.
Como referência para esse tipo de trabalho, que envolve manutenção do antigo aliado a inovação, Teresa Cristina cita o “mestre” Paulinho da Viola. “Ele ajudou a manter um samba de várias décadas antes, mas trouxe coisas novas.” Como exemplo cita sua versão de “O lenço”, de autoria de Monarco. “Ele desconstruiu a música totalmente e a cantou da maneira como ele via. A minha esperança é que a minha geração esteja fazendo o mesmo.”
A cantora cita ainda o samba “Meu lugar” (2007), de Arlindo Cruz e Mauro Diniz (filho de Monarco), lembrando que apesar de ser de compositores de uma geração passada é moderno e já se tornou “um novo clássico”. “O samba está cada vez mais misturado e cada vez mais ele permanece por conta disso. As pessoas sempre vão querer ouvir boas melodias, boas letras, independentemente de ser de 1930 ou 2016. Um bom samba é um bom samba.”
Preparamos uma playlist com todos os sambas mencionados e recomendados pelos entrevistados, chegando a uma lista final de 100 sambas. Confira “100 anos com samba”:
Produzido por Murilo Roncolato
Desenvolvimento por Ariel Tonglet
Vídeos por Guilherme Prado
Colaborou: Simon Ducroquet (layout)
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