O Brasil contava meio século desde a sua independência de Portugal, mas continuava sem poder dizer, em números, quem era. A prática de se recensear de tempos em tempos a população era comum entre países tidos como modernos e consolidados, como Estados Unidos, que contava seus habitantes desde 1790. Durante muito tempo, o conhecimento sobre o total de brasileiros dependeu de estimativas grosseiras. Na década de 1870, o governo imperial de D. Pedro 2º vê o momento adequado e planeja a realização de tal empreitada para finalmente conhecer e poder mostrar ao mundo um quadro idealmente próximo da composição populacional do país.
O retrato em dados do país se dá em 1872 no que se chamou de “Recenseamento da População do Imperio do Brazil” (seguindo a grafia original, tal qual será utilizada em todas as citações abaixo). Trata-se do primeiro censo (ou recenseamento) geral brasileiro, o único produzido no Império cobrindo todo o território nacional.
A pesquisa trazia um outro componente inédito e extremamente relevante em se tratando da identidade nacional que se construía pouco a pouco: seria a única a contemplar também a população escravizada, relacionando sua idade, estado civil, origem, “raça”, profissão e nível de instrução.
Realizado 16 anos antes da abolição definitiva da escravidão, sistema que serviu de combustível para a formação do país por mais de três séculos, o censo apresenta um Brasil de um ponto de vista temporal importante. Sob pressão externa e interna, o Império dava sinais de um processo gradual de desmonte do chamado “elemento servil”. O recenseamento cumpriu, assim, também, o importante papel de determinar o tamanho da população escravizada e o tempo para tirá-la dessa condição. Segundo relatório da Diretoria Geral de Estatística, espécie de IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) dos tempos do Império, era importante se saber a “diminuição anual” do número de escravos para “conseguir-se aproximadamente calcular o número de anos precisos para a completa extinção dos escravos no Império”.
As condições de “livre” e “escravo” eram marcadores importantes na configuração do país naquele momento histórico e, nesse sentido, os dados extraídos do censo e apresentados a seguir contrastam, sempre que possível, a população segmentada por essas condições.
“A execução acontece de forma muito positiva”, diz o historiador Diego Bissigo, autor de pesquisas sobre o censo e a produção estatística do Brasil no século 19. “O resultado se aproxima ao que se pode chamar de um bom censo, sendo inclusive melhor do que os primeiros que serão feitos durante a República.”
Um relatório posterior escrito pelo então diretor da DGE, resume o desafio e a qualidade do trabalho.
“Esse serviço pela primeira vez executado em um Estado de vasta extensão e cuja população, comparativamente diminuta, acha-se disseminada por todo o território, não pode pretender o cunho de um trabalho perfeito (...) Não sendo perfeito é o melhor que nas actuaes circumstancias se poderia alcançar.”
Manoel Francisco Correia
Conselheiro e diretor geral do DGE, em 31 de dezembro de 1876
Em 1872, o Brasil era dividido em 20 províncias (como Bahia, “Goyaz”, Pará e “Santa Catharina”) que, por sua vez, comportavam 641 municípios. Dentro deles, para fins do censo, o território era dividido em 1.473 paróquias – regiões que tinham como elemento central uma igreja, comandada por um pároco.
Para o recenseamento do Império, usando a paróquia como unidade mínima de contagem, agentes recenseadores eram os responsáveis por passar nas casas da região distribuindo as “fichas de família”. Os “chefes de família” deveriam, sob pena de multa, completá-las com exatidão e devolver ao agente recenseador em quinze dias.
A ficha pedia informações como nome, cor, idade, estado civil, lugar de nascimento, nacionalidade, profissão, religião, instrução e um campo para “observações”. Deveriam constar ali todas as pessoas da casa, nesta ordem: “Declara-se primeiramente o nome do chefe de familia, depois o da mulher, dos filhos, dos outros parentes que com elle morem e em seguida o dos criados, escravos, aggregados e hospedes”.
A imensa maioria da população, como mostram os dados, não sabia ler ou escrever, cabendo ao agente recenseador conferir a lista, corrigir erros ou preenchê-la do zero “solicitando para isso dos mesmos chefes de família, ou de pessoas da vizinhança, as informações e esclarecimentos necessários”. Some isso a atrasos na entrega de fichas, erros de somatória e fica evidente a imperfeição da qual falava o diretor do DGE.
Parte da imperfeição do trabalho na época foi resolvida com um extenso trabalho de revisão dos quadros do censo por uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais, concluído em 2012. Roberto Borges Martins fez parte do embrião dessa pesquisa. Estudando o censo, o economista e ex-presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) notou erros primários de soma e decidiu passá-lo a limpo.
“O Brasil não tinha censo, então não se tinha ideia de onde a população estava. Havia estimativas grosseiramente equivocadas apenas. O censo corrigiu muitas dessas coisas. Informação demográfica é importante para o planejamento de qualquer coisa, sobretudo de política pública. Eu não vou te dizer que ele foi usado para isso na época, mas ele trouxe muita informação útil para o Estado.”
Roberto Borges Martins
Economista
É com esses dados corrigidos do recenseamento de 1872 que o Nexo apresenta neste especial parte do retrato do Brasil daquela época, dando especial atenção para a condição do escravo, contabilizado oficialmente pelo país em todo território pela primeira e última vez.