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Jul 07, 2017 07:22:23 PM
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      Expresso

      Por que o modo noturno está virando opção em mais aplicativos

      Cesar Gaglioni 09/Out 14h14

      Design com visual escuro foi incluído na atualização mais recente do Instagram e está em desenvolvimento no Facebook e no Whatsapp

      Expresso

      Este site mapeia de onde vem e para onde vai o gado brasileiro

      André Cabette Fábio 09/Out 13h25

      Plataforma Trase indica também qual é a parcela da produção que potencialmente está associada ao desmatamento

      Expresso

      O guia que explica como combater a censura cultural

      Camilo Rocha
      Qual a capacidade do Brasil de lidar com óleo derramado no mar Estêvão Bertoni
      O que é a onda de protestos que desafia o governo do Iraque João Paulo Charleaux

      Explicado

      Crédito de carbono: a aposta de mercado contra o efeito estufa

      Marcelo Roubicek 04/Out 20h36

      Conceito surgiu no Protocolo de Kyoto no fim dos anos 90 como solução para combater mudanças climáticas. Desde então, registrou expansão, mas seu modelo passou a ser questionado

      Explicado

      A ascensão do universo dos games. E sua potência no século 21

      Cesar Gaglioni 01/Set 00h09

      Mercado ultrapassou a indústria de cinema e de música em termos financeiros, se tornando a forma de entretenimento mais lucrativa do mundo

      Explicado

      Depressão: do estigma ao transtorno de grandes proporções

      Laura Capelhuchnik
      O que foi o Plano Real e como ele controlou a hiperinflação José Roberto Castro
      Mudança climática: do aquecimento da Terra ao colapso ecológico Mariana Vick

      Gráfico

      Como está a percepção dos brasileiros sobre a corrupção

      Gabriel Maia e Lucas Gomes 08/Out 19h03

      O Barômetro da Corrupção, pesquisa da Transparência Internacional, mede como a população enxerga o corrompimento das instituições

      Gráfico

      Como é a produção de seda no Brasil e no mundo

      Gabriel Maia e Lucas Gomes 03/Out 18h08

      Fio produzido no país é considerado de altíssima qualidade e usado no mercado de luxo. Paraná é o estado que mais concentra o cultivo

      Gráfico

      O uso de serviços bancários por país e por gênero

      Caroline Souza e Gabriel Maia
      Qual o perfil dos acidentes de trânsito nas rodovias do Brasil Gabriel Maia e Lucas Gomes
      Quais os nomes de bebês mais populares de São Paulo em 2017 Gabriel Zanlorenssi e Lucas Gomes

      Vídeo

      O que aprendi com a depressão: entrevista com Andrew Solomon

      Antonio Mammi e Mauricio Abbade 02/Out 19h38

      Autor de “Longe da árvore” e “O demônio do meio dia”, escritor americano fala sobre a relação entre depressão e família

      Extrato

      Extratos da Semana 27.09.2019

      Letícia Arcoverde e Mauricio Ababde 27/Set 19h51

      A primeira fala do presidente brasileiro nas Nações Unidas. O desejo do ex-procurador-geral da República de matar um ministro do Supremo. O pedido de impeachment de Donald Trump. As palavras desafiadoras de Greta Thunberg. O efeito da violência no Rio. E mais

      Vídeo

      China: da revolução comunista ao protagonismo mundial

      João Paulo Charleaux, Letícia Arcoverde, Ricardo Monteiro, Thiago Quadros e Mauricio Abbade
      Extratos da Semana 20.09.2019 Letícia Arcoverde, Ricardo Monteiro e Mauricio Ababde
      O geneticista que elevou a qualidade do café brasileiro Denis Burgierman, Tiago Jokura e Gabriel Silveira

      Interativo

      O que você sabe sobre os ministros da Economia do Brasil?

      Marcelo Roubicek 07/Out 19h40

      Neste quiz, o ‘Nexo’ desafia sua memória e conhecimento sobre os nomes que comandaram a área econômica do país, do governo Sarney até Bolsonaro

      Interativo

      Previdência no Senado, aniversário da China: você entendeu a semana?

      Fernanda Giacomassi 04/Out 20h39

      Neste quiz, o 'Nexo' desafia seus conhecimentos sobre os fatos que marcaram esta semana

      Interativo

      Qual ministro do Supremo disse isto sobre a Lava Jato?

      Matheus Pimentel
      Discurso de Greta, impeachment de Trump: entendeu a semana? Fernanda Giacomassi
      O que você sabe sobre a obra de Bruce Springsteen? Faça o teste Cesar Gaglioni

      Entrevista

      Por que o Brasil deve participar das missões da ONU, segundo esta autora

      João Paulo Charleaux 07/Out 00h27

      Doutora em relações internacionais, Eduarda Hamann defende ‘reengajamento’ brasileiro em operações de paz das Nações Unidas

      Entrevista

      Por que o Brasil pende para o autoritarismo de tempos em tempos

      Estêvão Bertoni 29/Set 20h29

      Em novo livro, cientista político Leonardo Avritzer identifica mecanismos internos que possibilitam contestação do sistema político

      Entrevista

      A insegurança na Lava Jato, segundo este professor de direito

      Géssica Brandino
      O que é o peronismo, que vai da esquerda à direita na Argentina Matheus Pimentel
      Como o feminismo se relaciona com a pauta ambiental Juliana Domingos de Lima

      Serviço

      A água que bebemos. E o que fazer para mantê-la limpa

      Mariana Vick 10/Mai 19h36

      Cotidiana e essencial para a vida, água pode ser contaminada por agentes físicos, químicos e biológicos. O ‘Nexo’ reuniu informações sobre o tema e dicas para atestar a potabilidade

      Serviço

      Um guia de facas de cozinha: como escolher, usar e guardar

      Laura Capelhuchnik e Thiago Quadros 28/Mar 19h42

      De aço inox ou de cerâmica? Curva, com cerdas, grande ou pequena? E como manejá-las? Tire essas e outras dúvidas sobre o utensílio que é essencial em qualquer cozinha

      Serviço

      10 mentiras do 2º turno. E como se precaver no domingo

      Matheus Pimentel
      O que você precisa saber para votar no segundo turno Lilian Venturini
      As mentiras na eleição. E como se prevenir no dia da votação Matheus Pimentel

      Ensaio

      O YouTube é um ambiente seguro para crianças?

      Livia Cattaruzzi e Pedro Affonso D. Hartung 08/Out 18h27

      Mudanças na política de publicidade infantil na plataforma trazem avanços, mas ainda são insuficientes

      Ensaio

      Abrir a Renca para a mineração é leiloar a Amazônia

      Randolfe Rodrigues 05/Out 22h35

      Presidente Jair Bolsonaro fala em liberar exploração na reserva no Norte do país, que protege duas riquezas estratégicas, os minérios e a biodiversidade

      Ensaio

      Lugares de memória: Tiradentes e D. Pedro 1° na mesma praça?

      Marcos Napolitano
      Em busca de uma reforma tributária padrão universal Alexis Fonteyne
      Como a pauta antiaborto ganha força no Congresso em 2019 Vitória Régia e Flávia Bozza Martins

      Podcast

      As crises econômica e política por trás dos protestos no Equador

      José Orenstein e Conrado Corsalette 08/Out 18h36

      País está em estado de exceção. Manifestantes invadem Assembleia Nacional

      Podcast

      Os ataques de Bolsonaro ao trabalho da imprensa

      Conrado Corsalette e José Orenstein 07/Out 19h18

      Em meio a suspeitas no escândalo dos laranjas do PSL, presidente redobra aposta de enfrentamento com veículos de comunicação

      Podcast

      As suspeitas de uso de dados confidenciais do Banco Central

      Antonio Mammi e Conrado Corsalette
      A supercampeã que expõe o tabu da gravidez no esporte Letícia Arcoverde e Juliana Domingos de Lima
      O poder e os impasses da China nos 70 anos da revolução José Orenstein e Letícia Arcoverde

      Favoritos

      5 livros que ajudam a compreender o que é a Amazônia

      Kátia Brasil 05/Out 22h35

      A convidada da seção 'Favoritos' desta semana é a jornalista Kátia Brasil. Ela é cofundadora da agência de jornalismo independente Amazônia Real e indica cinco obras para conhecer melhor a floresta, seus habitantes tradicionais e suas lutas

      Trechos

      ‘Sete faces de Eduardo Coutinho’: um olhar além do cinema

      Carlos Alberto Mattos 03/Out 20h21

      O ‘Nexo’ publica trecho do livro que explora diferentes facetas do documentarista Eduardo Coutinho, de diretor de cinema e teatro a roteirista, ator, crítico e até autor de horóscopo. Mattos observa as transversalidades entre vida e obra de Coutinho e as circunstâncias que influenciaram seus filmes e preferência pelo cinema de encontro. Leia abaixo, parte do último capítulo, ‘Personagem’

      Favoritos

      5 livros para entender como nossos corpos funcionam

      Alicia Kowaltowski
      ‘Columbine’: a história do massacre. E uma crítica à mídia  Dave Cullen
      5 livros para refletir sobre a importância dos livros Rui Campos

      Especial

      Os 50 anos de ‘Abbey Road’

      Cesar Gaglioni e Thiago Quadros 25/Set 16h30

      Álbum foi o último a ser gravado pelos Beatles, marcando o fim da trajetória do quarteto de Liverpool. Conheça as histórias por trás das canções da obra que traz capa icônica e experimentação musical

      Especial

      21 músicas que ajudam a contar a história do rap

      Camilo Rocha e Thiago Quadros 01/Set 15h46

      Há 40 anos, o estilo musical cultivado nas ruas e quadras do Bronx lançou suas primeiras gravações. De Afrika Bambaataa a Kendrick Lamar, o rap nunca parou de se reinventar

      Especial

      As plantas lembram, veem, se movem e se comunicam

      César Gaglioni, Jessica Oliveira e Thiago Quadros
      É justo o projeto do governo para a reforma da Previdência? José Roberto Castro, Emilio Haro e Rodolfo Almeida
      ‘O Segundo Sexo’: as dúvidas e os porquês sobre ser mulher Laila Mouallem, Jessica Oliveira e Guilherme Falcão

      Externo

      Os dilemas morais de escalar o Monte Everest

      Peter Singer 07/Out 18h28

      Ainda que você tenha sorte suficiente para chegar ao topo sem passar por um escalador precisando de ajuda, estará optando por seu objetivo pessoal a salvar uma vida

      Externo

      Os critérios para o financiamento de pesquisas

      30/Set 20h54

      Presidente de agência austríaca explica como a indústria pode se beneficiar da ciência básica

      Externo

      O excesso de opções. E o peso de se fazer uma escolha

      Thomas Saltsman
      Por que não se fala sobre a natureza imaginativa da ciência
      Ser sustentável tem a ver com bem-estar, não com sacrifícios Kate Laffan

      Acadêmico

      Os temas da imprensa feminista no Brasil desde os anos 1970

      Viviane Gonçalves Freitas 02/Out 19h00

      Esta pesquisa, realizada na UnB, analisa os principais temas abordados por quatro jornais feministas brasileiros, que circularam nos últimos 40 anos no país, e as perspectivas dos movimentos representados

      Acadêmico

      Como é o cenário de consumo e cultura de fãs no Japão

      Beatriz Yumi Aoki 25/Set 18h19

      Esta pesquisa, realizada na PUC-SP, analisa como o fã japonês se relaciona com a fantasia a partir da construção da ídolo virtual Hatsune Miku

      Acadêmico

      O debate sobre a ferrovia em Minas no início do século 20

      Ramon Feliphe Souza
      A experiência de autonomia territorial zapatista no México Fábio Márcio Alkmin
      Como a identidade explica a política externa dos EUA Bárbara Vasconcellos de Carvalho Motta

      Profissões

      Como me tornei gestor de investimentos. E a vida entre bancos

      George Wachsmann 03/Out 18h33

      'Costumo dizer que sou um médico que cuida de um órgão exógeno, fora do corpo dos meus 'pacientes', que é o bolso deles'

      Profissões

      'Se você parar de fazer ciência pura, não consegue mais fazer ciência aplicada'

      Vinicius Ramos 12/Set 22h08

      Acostumado a passar a maior parte do tempo do lado de dentro de sua cabeça, resolvendo problemas que a maioria dos mortais não consegue nem entender, o matemático Vinicius Ramos, do Impa, fala da dificuldade de evitar distrações nos dias de hoje, dos smartphones aos cortes do governo

      Profissões

      'Aprendi a questionar tudo, inclusive o meu próprio dado'

      Patricia Bado
      ‘Me motiva construir dispositivos para o dia a dia das pessoas’ Thoroh de Souza
      Como me tornei atriz. E a vida entre palcos, sets e aulas Nani de Oliveira

      Léxico

      Quanto mais intensa ela é, mais forte é a sombra

      Sofia Mariutti  07/Out 00h27

      Luz

      Léxico

      O som que cala ou é calado: entre a morte e a meditação

      Sofia Mariutti  29/Set 20h33

      Si·lên·cio

      Léxico

      Ele está em volta de tudo. E pode ficar muito tenso

      Sofia Mariutti 
      O incômodo que é um movimento circular da desordem Sofia Mariutti 
      Pode ser um jogo ou uma estampa. E também uma prisão Sofia Mariutti 

      Colunistas

      O sol e a sombra. Ou como inventar uma história pela metade

      Lilia Schwarcz 07/Out 17h02

      Apagar ou borrar determinados acontecimentos quando se narra uma história não é obra do acaso. O caso da Revolução do Haiti é exemplar

      Tribuna

      Supersalários e cultura do privilégio na elite do funcionalismo

      Tiago Mitraud 04/Out 17h45

      Apenas a nossa constante vigilância e cobrança permitirá alterarmos a causa raiz de tanta cara de pau na hora de usar o dinheiro dos contribuintes

      Colunistas

      Qual o papel do governo na reativação da economia?

      Claudio Ferraz
      Os sonhos assassinados da família de Agatha Luciana Brito
      Justiça social: quando o senso comum engana Tabata Amaral
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ESPECIAL

Censo de 1872: o retrato do Brasil da escravidão

Por Daniel Mariani, Murilo Roncolato, Rodolfo Almeida e Ariel Tonglet em 27 de junho de 2017

Colagem sobre litografias de escravos de Johann Moritz Rugendas (“Malerische Reise In Brasilien”, 1835)

O Brasil contava meio século desde a sua independência de Portugal, mas continuava sem poder dizer, em números, quem era. A prática de se recensear de tempos em tempos a população era comum entre países tidos como modernos e consolidados, como Estados Unidos, que contava seus habitantes desde 1790. Durante muito tempo, o conhecimento sobre o total de brasileiros dependeu de estimativas grosseiras. Na década de 1870, o governo imperial de D. Pedro 2º vê o momento adequado e planeja a realização de tal empreitada  para finalmente conhecer e poder mostrar ao mundo um quadro idealmente próximo da composição populacional do país.

O retrato em dados do país se dá em 1872 no que se chamou de “Recenseamento da População do Imperio do Brazil” (seguindo a grafia original, tal qual será utilizada em todas as citações abaixo). Trata-se do primeiro censo (ou recenseamento) geral brasileiro, o único produzido no Império cobrindo todo o território nacional.  

A pesquisa trazia um outro componente inédito e extremamente relevante em se tratando da identidade nacional que se construía pouco a pouco: seria a única a contemplar também a população escravizada, relacionando sua idade, estado civil, origem, “raça”, profissão e nível de instrução.

Realizado 16 anos antes da abolição definitiva da escravidão, sistema que serviu de combustível para a formação do país por mais de três séculos, o censo apresenta um Brasil de um ponto de vista temporal importante. Sob pressão externa e interna, o Império dava sinais de um processo gradual de desmonte do chamado “elemento servil”. O recenseamento cumpriu, assim, também, o importante papel de determinar o tamanho da população escravizada e o tempo para tirá-la dessa condição. Segundo relatório da Diretoria Geral de Estatística, espécie de IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) dos tempos do Império, era importante se saber a “diminuição anual” do número de escravos para “conseguir-se aproximadamente calcular o número de anos precisos para a completa extinção dos escravos no Império”.

As condições de “livre” e “escravo” eram marcadores importantes na configuração do país naquele momento histórico e, nesse sentido,  os dados extraídos do censo e apresentados a seguir contrastam, sempre que possível, a população segmentada por essas condições.

“A execução acontece de forma muito positiva”, diz o historiador Diego Bissigo, autor de pesquisas sobre o censo e a produção estatística do Brasil no século 19. “O resultado se aproxima ao que se pode chamar de um bom censo, sendo inclusive melhor do que os primeiros que serão feitos durante a República.”

Um relatório posterior escrito pelo então diretor da DGE, resume o desafio e a qualidade do trabalho.

“Esse serviço pela primeira vez executado em um Estado de vasta extensão e cuja população, comparativamente diminuta, acha-se disseminada por todo o território, não pode pretender o cunho de um trabalho perfeito (...) Não sendo perfeito é o melhor que nas actuaes circumstancias se poderia alcançar.”

Manoel Francisco Correia

Conselheiro e diretor geral do DGE, em 31 de dezembro de 1876

Em 1872, o Brasil era dividido em 20 províncias (como Bahia, “Goyaz”, Pará e “Santa Catharina”) que, por sua vez, comportavam 641 municípios. Dentro deles, para fins do censo, o território era dividido em 1.473 paróquias – regiões que tinham como elemento central uma igreja, comandada por um pároco.

Para o recenseamento do Império, usando a paróquia como unidade mínima de contagem, agentes recenseadores eram os responsáveis por passar nas casas da região distribuindo as “fichas de família”. Os “chefes de família” deveriam, sob pena de multa, completá-las com exatidão e devolver ao agente recenseador em quinze dias.

Imagem: Reprodução/Biblioteca IBGE
Tabela
Tabela com resultados do Recenseamento de 1872, tabulados pela Diretoria Geral de Estatísticas

A ficha pedia informações como nome, cor, idade, estado civil, lugar de nascimento, nacionalidade, profissão, religião, instrução e um campo para “observações”. Deveriam constar ali todas as pessoas da casa, nesta ordem: “Declara-se primeiramente o nome do chefe de familia, depois o da mulher, dos filhos, dos outros parentes que com elle morem e em seguida o dos criados, escravos, aggregados e hospedes”.

A imensa maioria da população, como mostram os dados, não sabia ler ou escrever, cabendo ao agente recenseador conferir a lista, corrigir erros ou preenchê-la do zero “solicitando para isso dos mesmos chefes de família, ou de pessoas da vizinhança, as informações e esclarecimentos necessários”. Some isso a atrasos na entrega de fichas, erros de somatória e fica evidente a imperfeição da qual falava o diretor do DGE.

Parte da imperfeição do trabalho na época foi resolvida com um extenso trabalho de revisão dos quadros do censo por uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais, concluído em 2012. Roberto Borges Martins fez parte do embrião dessa pesquisa. Estudando o censo, o economista e ex-presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) notou erros primários de soma e decidiu passá-lo a limpo.

“O Brasil não tinha censo, então não se tinha ideia de onde a população estava. Havia estimativas grosseiramente equivocadas apenas. O censo corrigiu muitas dessas coisas. Informação demográfica é importante para o planejamento de qualquer coisa, sobretudo de política pública. Eu não vou te dizer que ele foi usado para isso na época, mas ele trouxe muita informação útil para o Estado.”

Roberto Borges Martins

Economista

É com esses dados corrigidos do recenseamento de 1872 que o Nexo apresenta neste especial parte do retrato do Brasil daquela época, dando especial atenção para a condição do escravo, contabilizado oficialmente pelo país em todo território pela primeira e última vez.

9.930.478 pessoas

homens livres

mulheres livres

805.170

homens

escravos

705.636

mulheres

escravas

9.930.478 pessoas

homens livres

mulheres livres

805.170

homens

escravos

705.636

mulheres

escravas

O Brasil contava com uma população de 9,93 milhões de pessoas, sendo 51,6% homens e 48,4% mulheres (no censo de 2010, 138 anos depois, as mulheres representam 51% do total). Quando a análise considera a “condição social”, separando o universo entre livres e escravos, o resultado é o seguinte: 84,8% e 15,2%, respectivamente. A população brasileira seguia a proporção aproximada de um escravo para cada 6 pessoas livres.

O número pode até soar baixo para um país que rumava para a abolição – em 1860, a três anos do fim da abolição nos Estados Unidos, por exemplo, os escravos representavam 12,6% da população americana. Mas ele também é falso. Isso porque esse grupo de livres incluía escravos libertos, condicionados a servir seus senhores enquanto estes vivessem. Ironicamente, também uma forma de escravidão ainda que informal, justificada como demonstração de gratidão pela liberdade concedida.

É o que o historiador e professor da Unicamp, Sidney Chalhoub, chama de “precariedade estrutural da liberdade”. Além da alforria condicional, o especialista em seu trabalho sobre “o problema da liberdade no Brasil escravista” cita ainda “restrições constitucionais aos direitos políticos dos libertos, a interdição dos senhores à alfabetização de escravos e o acesso diminuto de libertos e negros livres em geral à instrução primária (...), a possibilidade de revogação de alforrias, as práticas de escravização ilegal de pessoas livres de cor” e “a conduta da polícia nas cidades de prender negros livres sob a alegação de suspeição de que fossem escravos fugidos”.

Nacionalidade

brasileira

estrangeira

Homens

Livres

96%

4

Escravos

89%

11%

Mulheres

Livres

98%

2

Escravas

92%

8%

Nacionalidade

brasileira

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Homens

Livres

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Escravos

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Mulheres

Livres

98%

2

92%

8%

Escravas

Em meio à massa de quase 10 milhões de habitantes, o Brasil tinha 382,1 mil estrangeiros, a maioria deles (cerca de 70%) homens. O governo imperial achou, por bem, enquadrar escravos trazidos de diversas regiões da África também como estrangeiros, em contraposição àqueles que nasceram no Brasil, filhos ou netos de escravos. “O escravo africano é visto como um imigrante, mas ele não é um imigrante convencional, ele é um imigrante forçado”, destaca Diego Bissigo. Do total de imigrantes, 36% eram escravos.

O historiador autor do estudo “O Censo e as Nações: os africanos nos levantamentos populacionais no Brasil do século XIX” aponta para o “apagamento” da origem desses estrangeiros africanos. Seja por responsabilidade do chefe de família, do agente recenseador ou da DGE, o tabulamento final do recenseamento agrupou quaisquer termos usados para designar uma região ou grupo étnico original da África (“da nação Congo”, “cabinda”, “benguela” ou “mina”) simplesmente como “africanos”.

“Muitos termos [como ‘benguela’ e ‘mina’] não correspondiam ao Estados nacionais, mas davam pistas da origem desse africano. Mas, em 1872, a estatística simplifica”, diz Bissigo. “Ela é inimiga da diversidade, em certo sentido. O heterogêneo é caótico”.

“Colocar todos como ‘africanos’ foi uma solução encontrada na época”, continua Bissigo. “Mas não é só por culpa da estatística, até porque o europeu não vira 'europeu', ele é alemão, belga, etc. Foi uma opção política. O Brasil reconhece esses países, mas não reconhece países africanos.”

“Muitos termos [como ‘benguela’ e ‘mina’] não correspondiam ao Estados nacionais, mas davam pistas da origem desse africano. Mas, em 1872, a estatística simplifica”, diz Bissigo. “Ela é inimiga da diversidade, em certo sentido. O heterogêneo é caótico”.

“Colocar todos como ‘africanos’ foi uma solução encontrada na época”, continua Bissigo. “Mas não é só por culpa da estatística, até porque o europeu não vira 'europeu', ele é alemão, belga, etc. Foi uma opção política. O Brasil reconhece esses países, mas não reconhece países africanos.”

Origem dos estrangeiros

Homens livres

Mulheres livres

Homens escravos

Mulheres escravas

Africanos

Portugueses

Alemães

Somando-se escravos e livres, africanos eram o maior grupo de estrangeiros

Italianos

Franceses

Orientais

Ingleses

Espanhóis

Paraguaios

Termo usado

na época para

designar uruguaios

Suissos

Norte-americanos

Argentinos

Bolivianos

Austríacos

Holandeses

Chineses

Belgas

Peruanos

Dinamarqueses

Suecos

Gregos

Russos

Persas

Húngaros

Japoneses

Mexicanos

Turcos

0

25 mil

50 mil

75 mil

100 mil

125 mil

150 mil pessoas

Origem dos estrangeiros

Homens livres

Mulheres livres

Homens escravos

Mulheres escravas

Africanos

Portugueses

Alemães

Somando-se escravos e livres, africanos eram o maior grupo de estrangeiros

Italianos

Franceses

Orientais

Ingleses

Espanhóis

Paraguaios

Termo usado

na época para

designar uruguaios

Suissos

Norte-americanos

Argentinos

Bolivianos

Austríacos

Holandeses

Chineses

Belgas

Peruanos

Dinamarqueses

Suecos

Gregos

Russos

Persas

Húngaros

Japoneses

Mexicanos

Turcos

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150

mil pessoas

Os “africanos”, escravos ou livres, compõem a maior parte dos estrangeiros (46%). Em seguida, estão portugueses (33%), alemães (10,5%), italianos (2,1%) e franceses (1,8%).

Para o economista e pesquisador Roberto Borges Martins, há nesses dados um “apagamento” de outra ordem. Em 1831, uma lei brasileira (conhecida como “Lei Feijó” e alcunhada de “Lei para inglês ver”) proibiu o tráfico de escravos (“Todos os escravos, que entrarem no territorio ou portos do Brazil, vindos de fóra, ficam livres”), determinação reforçada em uma nova lei, essa de 1850 (Lei Eusébio de Queirós), que garantia a apreensão de navios de traficantes em mar ou portos brasileiros.

Por consequência, qualquer escravo declarado como africano no censo com menos de 59 anos seria uma clara ilegalidade. “Assim, o que existe é uma grande ocultação da origem africana dos escravos. É uma coisa que assusta: existe uma população escrava de 1,5 milhão e um número de africanos proporcionalmente muito pequeno [9,2%]”, diz Martins. O economista explica que o dado é ilusório dado que a população escrava brasileira nunca teve crescimento natural positivo (mais nascimento do que morte). Ou seja, ela dependia da importação (ilegal) de pessoas para se manter.

A busca pela origem dessa população heterogênea do continente africano se tornou objeto de pesquisa no Brasil e fora dele. Por aqui, o IBGE organizou dados que apontam uma entrada de quase 1,9 milhão africanos escravizados a contar do início do século 18, trazidos sobretudo da Angola e da Costa do Marfim.

Já o projeto Slave Voyages, uma iniciativa conjunta de instituições internacionais em operação desde 1960, indicam registro da entrada de mais de 3 milhões de escravos no Brasil desde 1560, sobretudo em portos de Rio de Janeiro e Bahia. Estes oriundos de ao menos oito grandes regiões do continente, como Senegâmbia, Golfo do Benim, África Centro-Ocidental e Golfo de Biafra.

Pirâmide etária

da população livre

MULHERES

HOMENS

Mais de 100

91 a 100

81 a 90

71 a 80

61 a 70

51 a 60

41 a 50

31 a 40

21 a 30

11 a 20

0 a 10 anos

20

20

10

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10

Pirâmide etária

da população escrava

MULHERES

HOMENS

Mais de 100

91 a 100

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51 a 60

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Pirâmide etária

da população livre

Mais de 100

MULHERES

HOMENS

91 a 100

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51 a 60

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31 a 40

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Pirâmide etária

da população escrava

Mais de 100

MULHERES

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0 a 10 anos

20

10

0

10

20

A questão da idade, assim como a do local de origem, acabou se tornando uma vitrine da simplificação imposta pela estatística, bem como da criatividade dos “senhores” para manter seu patrimônio escravo apesar dos avanços jurídicos do país.

De um lado, havia a lei de 1831 que proibira o tráfico de escravos africanos; de outro, a Lei do Ventre Livre – aprovada em fins de setembro de 1871, dez meses antes da realização do censo –, que declarava livre todos os “filhos de mulher escrava que nascerem no Imperio”.

Sendo assim, em 1872, escravos de origem africana não poderiam ter menos que 59 anos; nem filhos de escravas nascidos no Brasil poderiam ter menos que 11 meses. Caso contrário, deveriam ser livres. Embora especialistas possam apenas deduzir, seria por essas razões que as pirâmides etárias podem estar distorcidas.

O historiador Diego Bissigo aponta também a possibilidade de que uma compra exagerada de escravos às vésperas da lei de 1831 – para fins de se criar um “estoque” – possa ter servido para a pirâmide mais inflada na faixa dos 40 anos para cima.

Ele observa também a existência de fichas familiares declarando a idade de escravos da seguinte forma: “Mais de 40 anos”. “Na época não havia registro civil. Não era raro escravos ou mesmo pessoas livres não saberem suas idades. Mas fica claro que esse arredondamento de idades para 40 anos soava como uma boa para [os senhores] se livrarem de qualquer crime”.

Pirâmides etárias

de ambos

MULHERES

HOMENS

Mais de 100

livres

escravos

91 a 100

81 a 90

71 a 80

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0 a 10 anos

20

20

10

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Pirâmides etárias

de ambos

livres

Mais de 100

escravos

91 a 100

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61 a 70

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0 a 10 anos

20

10

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20

Segundo relatório de 1876 sobre o recenseamento, em um período de três anos (entre 1872 e 1875), aproximadamente 164 mil crianças, filhos de escravas, nasceram livres.

Vale notar, no entanto, que a “liberdade” não era completa. De acordo com a lei, a criança passava a ser de responsabilidade do senhor até os oito anos. Nessa idade, ela poderia ser entregue ao governo (que “lhe dará destino”) mediante pagamento de indenização ao senhor ou continuar servindo-lhe até seus 21 anos.

Na década seguinte ao censo, em 1885, entra em vigor a Lei dos Sexagenários, dando liberdade a todos os escravos com mais de 60 anos. Liberdade, mais uma vez, condicionada a uma indenização aos senhores. No caso, a obrigação de servi-los por mais três anos ou até a idade limite de 65 anos. Três anos também foi o intervalo dali até a abolição definitiva da escravidão.

Religião

acatólicos

católicos

Homens

Livres

99%

Escravos

100%

Mulheres

Livres

99%

Escravas

100%

imensa maioria de acatólicos era de origem estrangeira

1%

Religião

acatólicos

católicos

Homens

Livres

99%

Escravos

100%

Mulheres

Livres

99%

Escravas

100%

imensa maioria de acatólicos era de origem estrangeira

1%

“Predomina entre nós o catholicismo. As outras religiões contão poucos adeptos.” Assim começa o minúsculo texto dedicado a religião no relatório da Diretoria Geral de Estatística. Sobre as “outras religiões”, o censo do governo imperial não perguntou de quais se tratavam, sejam as protestantes (80% dos 28 mil “acatólicos” eram de origem alemã) ou de matriz africana. Isso porque, entre todos os africanos livres, apenas 184 estão assinalados como de religião “diferente do Estado” (no censo da Corte, de 1870, assim eram designados os não católicos). Entre escravos, não houve exceção. Todos estão apontados como seguidores do catolicismo.

A religião era um aspecto sempre presente nas políticas adotadas pelo Estado (que só se autodenominaria laico na República, com a Constituição de 1891). A já citada Lei Eusébio de Queirós, de 1850, assegurava a apreensão de embarcações negreiras, mas dizia que se “os africanos” salvos dos traficantes “não tiverem sido baptisados, ou havendo sobre isso duvida”, a autoridade deveria “providenciar para que o sejão immediatamente”.

Para o historiador Diego Bissigo, atestar o catolicismo entre os escravos era uma forma de afirmar-se civilizado. “Desde os primórdios no Brasil, a escravidão se justificava pela chance de salvar aquelas almas do paganismo. Seria um fracasso não ter 100% de catolicismo nas pessoas as quais controlamos”, diz.

Em “História das Estatísticas Brasileiras”, trabalho fundamental do economista Nelson Senra, pesquisador do IBGE, diz que a falta de pluralidade religiosa observada entre escravos no censo pode ser explicada por duas razões: “não houve divulgação porque não havia o fato ou havia o fato mas não houvera o registro”

‘Raça’

branco

pardo

preto

caboclo

População em geral

38%

38%

20%

4

Escravos

31%

69%

‘Raça’

branco

pardo

preto

caboclo

População em geral

38%

38%

20%

4

Escravos

69%

31%

As categorias de cor ou raça nem sempre estiveram presentes nos censos posteriores ao de 1872. Da mesma forma, os termos utilizados também variaram (em 1890, “pardo” foi substituído por “mestiço”, por exemplo). A definição pelo IBGE de cor ou raça dentre as cinco categorias atuais (“branco”, “preto”, “pardo”, “amarelo” ou “indígena”) passou a valer em 1991, sendo mantida em 2000 e 2010.

Os censos de 1950 e 1960 foram os primeiros em que o princípio da autodeclaração orientou a coleta de dados. No século 19, não era assim. A classificação era feita pelo senhor ou agente do censo.

O governo imperial distinguia a população brasileira em “tres raças distinctas” (nada de cor): branca, africana e indígena. Com uma opção adicional: “Do cruzamento da raça africana com as outras resultou a classe dos pardos”, que compunha mais de um terço da população. Assim, pardos seriam todos os filhos de africanos (31% dos escravos são declarados como pardos) com indígenas (ora identificados como “caboclos”) ou brancos.

A determinação da “raça” se fundamentaria na origem dos escravos. Essa era a regra, mas pesquisadores apontam que a condição social também podia influenciar a classificação. “O pardo é o mestiço, mas também é o ‘crioulo’ que nasceu no Brasil então é ‘menos preto’ que o preto africano. Usa-se o pardo para o liberto, porque é como se a liberdade produzisse um efeito branqueador de alguma forma, mas isso tudo é muito sutil, não dá para dizer que todo caso é assim. Mas são possibilidades averiguadas na literatura”, explica Diego Bissigo.

O “branqueamento” do brasileiro foi, na virada para o século 20, foi uma tese abraçada por parte da elite nacional. O brasilianista americano Thomas Skidmore resumiu, no livro “Preto no Branco” (1989), a teoria afirmando que ela “baseava-se na presunção da superioridade branca, às vezes, pelo uso dos eufemismos raças 'mais adiantadas' e 'menos adiantadas' e pelo fato de ficar em aberto a questão de ser a inferioridade inata”, escreveu.

Skidmore explica que, dentro dessa lógica, a “miscigenação” foi vista como algo positivo e “natural” ao produzir “uma população mais clara, em parte porque o gene branco era mais forte e em parte porque as pessoas procurassem parceiros mais claros do que elas”, citando a política de incentivo à imigração europeia branca como um reforço desse branqueamento.

Outro caso é o dos indígenas que, pela classificação problemática, acabam misturados ao “pardo” (por determinação da cor). “É muito fácil de imaginar que a maioria dos indígenas passou batida por essa contagem. Houve caso de aldeias que não foram contadas porque, segundo um relatório, houve dificuldade de se chegar”, diz Bissigo.

Proporção de escravos

entre a população

Amazonas

Pará

Ceará

Rio Grande

do Norte

Maranhão

Parahyba

Piauhy

Pernambuco

Alagoas

Sergipe

Bahia

Goyaz

Matto

Grosso

Minas

Geraes

6%

10%

12%

Espírito

Santo

São

Paulo

17%

Rio de

Janeiro

Paraná

Santa

Catharina

Rio Grande

do Sul

31%

escala

em quantil

Proporção de escravos entre a população

AM

RN

CE

MA

PA

PB

PI

PE

AL

SE

BA

MT

GO

6%

MG

10%

12%

ES

17%

SP

RJ

PR

SC

RS

31%

escala

em quantil

Ao lado, o mapa das províncias brasileiras com a distribuição de escravos pelo país. Todos os municípios brasileiros, sem exceção, contavam com o “elemento servil”. Na comparação com o total da população da província, lideram Rio de Janeiro (31%), Espírito Santo (24%), Maranhão (21%), Minas Gerais (17%) e São Paulo (17%). Os com menos escravos, proporcionalmente, eram Amazonas (2%), Ceará (5%), Rio Grande do Norte (6%), Parahyba (6%) e Goyaz (6%). Em valores absolutos, lideram Minas Gerais (345 mil), Rio de Janeiro (263 mil), Bahia (172 mil), São Paulo (126 mil) e Pernambuco (92 mil).

Na época, com o tráfico dificultado, observou-se um fluxo de comércio de escravos internamente, sobretudo das regiões Norte e Nordeste para o Sudeste, onde se concentrava a produção cafeeira. Esse fluxo interno, como explica o economista Roberto Borges Martins, passou a cair a partir de 1880, quando Rio de Janeiro, Minas Gerais e depois São Paulo começaram a tributar a entrada de escravos. Martins interpreta a adoção do imposto como uma tentativa de evitar o surgimento de dois brasis: um escravista ao sul, e um livre ao norte. “Eles não queriam ficar isolados, não queriam que acontecesse aqui o que se deu nos EUA”, culminando na Guerra de Secessão (1861-1865) e no fim da escravidão por lá (1863).

Índice de analfabetismo

sabe ler e escrever

analfabeto

Homens

Livres

23%

77%

Escravos

99%

Mulheres

Livres

13%

87%

Escravas

99%

População escolar (6 a 15 anos de idade)

frequentam escola

não frequentam escola

sem infos

Homens

Livres

17%

83%

Escravos

99%

Mulheres

Livres

11%

89%

Escravas

99%

Índice de analfabetismo

sabe ler e escrever

analfabeto

Homens

Livres

23%

77%

Escravos

99%

Mulheres

Livres

13%

87%

99%

Escravas

População escolar

(6 a 15 anos de idade)

frequentam escola

sem infos

não frequentam escola

Homens

Livres

17%

83%

99%

Escravos

Mulheres

Livres

89%

11%

99%

Escravas

De longe, o grau de instrução e o analfabetismo foram os temas sobre os quais mais se dedicou atenção por parte da Diretoria Geral de Estatística. No documento em que comentam os resultados, é com um tom que aparenta vergonha que afirmam: “É pouco animador o quadro da estatistica intellectual”, seguido de uma avaliação otimista de que não demoraria muito até que “varie para melhor a proporção ora existente entre os que sabem e os que não sabem ler”.

A população escravizada foi ignorada nos resultados. A avaliação é feita apenas sobre a livre. Sobre esta, apenas 19% sabiam ler e escrever (23% entre homens, 13% entre as mulheres).

Já os dados sobre quem, dentro do universo da população de 6 a 15 anos, frequentava escola, a proporção é de 17% entre homens e 11% de mulheres, respectivamente. Como diagnóstico, a DGE aponta que “os governos provinciaes tem deixado de instituir o ensino obrigatorio, e apenas uma ou outra provincia o tem estabelecido para aquelles individuos em idade propria”.

População com profissão

sem profissão

com profissão

Homens

Livres

58%

42%

Escravos

77%

23%

Mulheres

Livres

51%

49%

Escravos

76%

24%

População com profissão

sem profissão

com profissão

Homens

Livres

58%

42%

Escravos

77%

23%

Mulheres

Livres

51%

49%

76%

24%

Escravos

Além de registros sobre grau de instrução que provocaram embaraço, o quadro de profissões também mostra um cenário pouco animador. Partindo da população total (homens e mulheres), cerca de 42% não tinham profissão (55% entres os livres, 24% entre escravos). A própria DGE reconhece que o contingente sem uma profissão específica era “enorme”, sobretudo nas províncias do Rio Grande do Norte, Minas Gerais e Pernambuco.

Em uma época em que poucos frequentavam escolas e não havia plano de aposentadoria, é difícil imaginar que quase metade da população não trabalhava.

Além do contingente esperado de desempregados, é possível que o dado tenha sido afetado por um detalhe do próprio censo. O historiador Diego Bissigo avalia que a pergunta do quadro era problemática, pois se pedia “profissão”, “ofício”, “ocupação habitual” ou “meios de vida”, equiparando categorias que, na verdade, são diferentes na forma como definem a atividade “trabalho”.

“Além de não ter uma regulamentação sobre profissões, as pessoas executavam muitos serviços distintos. A gama de respostas possíveis era muito grande tanto para a população livre quanto para a escravizada”, diz.

Profissões

agricultura

liberais

serviço doméstico

capitalistas e proprietários

assalariados

manuais e mecânicas

industriais e comerciais

militares

pescadores

marítimos

Homens livres

Operários

Criadores

Lavradores

Comerc.

Artistas

Militares

Criados e

Jornaleiros

Serviço doméstico

Profissões

agricultura

liberais

serviço doméstico

capitalistas e proprietários

assalariados

manuais e mecânicas

industriais e comerciais

militares

pescadores

marítimos

Homens escravos

Serviço doméstico

Lavradores

Criados e Jornaleiros

Profissões

agricultura

liberais

serviço doméstico

capitalistas e proprietários

assalariados

manuais e mecânicas

industriais e comerciais

militares

pescadores

marítimos

Mulheres livres

Serviço doméstico

Costureiras

Criadores

Operários em tecidos

Lavradores

Criados e

Jornaleiros

Profissões

agricultura

liberais

serviço doméstico

capitalistas e proprietários

assalariados

manuais e mecânicas

industriais e comerciais

militares

pescadores

marítimos

Mulheres escravas

Serviço doméstico

Costureiras

Operários

em tecidos

Lavradores

Criados e

Jornaleiros

Profissões

agricultura

serviço doméstico

liberais

assalariados

manuais e mecânicas

militares

pescadores

marítimos

industriais

capitalistas e proprietários

Homens livres

Operário

Criadores

Lavradores

Comerc.

Artistas

Militar

Criados e

Jornaleiros

Serviço

doméstico

A DGE acabou, assim, para aqueles que declararam alguma profissão, separando as profissões em grandes categorias: indústria agrícola (lavradores e “criadores”, ou pecuaristas), profissões manuais e mecânicas (construção civil, indústria têxtil, marceneiros, sapateiros, etc), comércio, manufaturas e “artes liberais” (religiosos, juristas, médicos, professores e funcionários públicos).

Além destes, eram tipos separados as profissões de pessoas “assalariadas” (que faziam pequenos trabalhos diários em troca de pagamento), serviço doméstico, militares, pescadores, “marítimos” e “capitalistas” ou proprietários de terra ou fábrica.

Profissões

agricultura

serviço doméstico

liberais

assalariados

manuais e mecânicas

militares

pescadores

marítimos

industriais

capitalistas e proprietários

Homens escravos

Serviço doméstico

Lavradores

Criados e Jornaleiros

Abaixo desses grandes grupos, contam-se 32 subcategorias profissionais. Destas, as mulheres (sobretudo as livres) ficavam de fora de 18, como juízes, advogados, médicos, empregados públicos e militares.

Profissões

agricultura

serviço doméstico

liberais

assalariados

manuais e mecânicas

militares

pescadores

marítimos

industriais

capitalistas e proprietários

Mulheres livres

Serviço doméstico

Costureiras

Criadores

Operários

em tecidos

Lavradores

Criados e

Jornaleiros

Escravos, sejam homens ou mulheres, trabalhavam mais que a população livre na agricultura (54% contra 29% dos livres), bem como em serviços domésticos (12% contra 10%) e como criado ou jornaleiro (que não é o profissional que vende jornal, mas o que é pago por uma jornada de trabalho), uma espécie de “bico” (caso de 6% dos escravos, contra 4%).

Profissões

agricultura

serviço doméstico

liberais

assalariados

manuais e mecânicas

militares

pescadores

marítimos

industriais

capitalistas e proprietários

Mulheres escravas

Costureiras

Serviço doméstico

Operários

em tecidos

Lavradores

Criados e

Jornaleiros

“Quando o senhor não tinha uma função para o escravo, ele deixava o escravo ao ganho”, explica o historiador Diego Bissigo. “Ele ia para cidade buscar emprego e o senhor ficava com o salário que o escravo recebesse. É uma forma de uso para o escravo. Assim, ou alugando para outro senhor também.”

A DGE acabou, assim, para aqueles que declararam alguma profissão, separando as profissões em grandes categorias: indústria agrícola (lavradores e “criadores”, ou pecuaristas), profissões manuais e mecânicas (construção civil, indústria têxtil, marceneiros, sapateiros, etc), comércio, manufaturas e “artes liberais” (religiosos, juristas, médicos, professores e funcionários públicos).

Além destes, eram tipos separados as profissões de pessoas “assalariadas” (que faziam pequenos trabalhos diários em troca de pagamento), serviço doméstico, militares, pescadores, “marítimos” e “capitalistas” ou proprietários de terra ou fábrica.

Abaixo desses grandes grupos, contam-se 32 subcategorias profissionais. Destas, as mulheres (sobretudo as livres) ficavam de fora de 18, como juízes, advogados, médicos, empregados públicos e militares.

Escravos, sejam homens ou mulheres, trabalhavam mais que a população livre na agricultura (54% contra 29% dos livres), bem como em serviços domésticos (12% contra 10%) e como criado ou jornaleiro (que não é o profissional que vende jornal, mas o que é pago por uma jornada de trabalho), uma espécie de “bico” (caso de 6% dos escravos, contra 4%).

“Quando o senhor não tinha uma função para o escravo, ele deixava o escravo ao ganho”, explica o historiador Diego Bissigo. “Ele ia para cidade buscar emprego e o senhor ficava com o salário que o escravo recebesse. É uma forma de uso para o escravo. Assim, ou alugando para outro senhor também.”

Como escreveu Nelson Senra, pesquisador do IBGE e grande especialista dos censos brasileiros, a realização de um censo “na amplidão territorial brasileira, com a rarefação da população, com a precariedade das comunicações e dos transportes” foi “sem dúvida, um grande desafio, uma sequência complexa, de difícil execução”.

Mas a complexidade do mapeamento detalhado da população não deve ser pensada como algo restrito ao século 19. O plano original de repetir o censo a cada 10 anos,  falhou vez ou outra – foram feitos 12 dos 15 possíveis entre 1872 e 2010. Os que “furaram” a programação foram os de 1880 (quando, sem recursos, a DGE foi desmontada), 1910 (na época, estourou a Revolta da Chibata no Rio de Janeiro) e, em 1930 (ano do golpe liderado por Getúlio Vargas, que tomou o governo).

Assim, mesmo depois de tantas edições, o recenseamento de 1872 tem um lugar de destaque. Primeiro, em função do pioneirismo da iniciativa. Mas, além disso, o olhar sobre a população brasileira naquele momento, sob o governo imperial e às vésperas do fim da escravidão, traz  uma perspectiva valiosa acerca do país na época.

Para o economista Roberto Borges Martins, a utilidade do recenseamento de 1872 chega aos dias de hoje, servindo como um retrato de quem o Brasil, apesar dos quase 200 milhões de habitantes a mais, ainda é. “Olhando para o recenseamento fica evidente que diversos problemas de hoje são decorrência daquele Brasil”, diz Martins.

Como registro histórico e social, o censo de 1872 também aponta para temas que foram se mostrando fundamentais para pensar a questão racial no país ao longo da sua história, sublinhando muitas das desigualdades que hoje, ainda que em versões atualizadas, seguem longe de estar superadas.

ESTAVA ERRADO: O mapa de proporção de escravos entre a população das províncias apresentava uma relação imprecisa dos dados. As informações foram corrigidas e o mapa atualizado às 15h40 no dia 10 de julho de 2017.

O texto destacava o suposto agrupamento "orientais" dentre a categoria de estrangeiros como um termo para designar pessoas de países do oriente. Na realidade, o termo se referia na época aos provenientes do Uruguai (país que fica do lado oriental do Rio Uruguai), cujo nome oficial é, até hoje, República Oriental do Uruguai. O texto foi atualizado às 13h00 no dia 11 de julho de 2017.

Na visualização para celulares, um dos mapas trocava as siglas do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. O texto foi corrigido às 16h12 do dia 17 de maio de 2019.

Produzido por Murilo Roncolato

Dados por Daniel Mariani

Layout por Rodolfo Almeida

Desenvolvimento por Ariel Tonglet

Edição por Marina Menezes

© 2017 Nexo Jornal